Do grafite ao bordado, exposições ressaltam a potência da Arte Feminina

A expressiva produção feminina nas artes visuais é o grande destaque da quinta edição do Programa ARTEMINAS, que terá as exposições abertas a partir do dia 29 de novembro. Trata-se de uma iniciativa da Fundação Clóvis Salgado que se consolida como um programa voltado às artes visuais mineiras e seus artistas.

“Sobre o que se desenha” MAP2015

ARTEMINAS Narrativas Femininas – Sou aquilo que não foi ainda  – possui curadoria da Gerente de Artes Visuais da FCS, Uiara Azevedo, e da curadora independente Marci Silva, além da assistência curatorial de André Murta. O título da mostra leva o verso de um poema da artista mineira Teresinha Sores, artista plástica e escritora que abarca em sua produção o universo feminino de forma transgressora e antipatriarcal. “O que não foi ainda” nos diz sobre um processo constante de luta feminina – do que estar por vir, e do que se busca fazer acontecer.

Para este ano, foram convidadas as artistas Carolina Bortura, Guilia Puntel e Julia Panadês (Galerias Genesco Murta e Arlinda Corrêa Lima), da exposição coletiva Híbrida, com linguagens e propostas características do universo contemporâneo; Ártemis Garrido, Isabel Saraiva, Maria Clara Cheib e Amanda Vilaça (Galeria Aberta Amílcar de Castro), com a exposição Efêmera, evidenciando a potencialidade do grafite; Os coletivos As Bordadeiras do Curtume e Bordadeiras da Vila Mariquinhas, além das artistas Ana do Baú, Ana Ribeiro, Cássia Macieira, Clemência, Dida, Dionisia, Dona Enedina, Dona Irene, Dona Isabel, Eva, Geralda Batista, Ivanete, Maria de Lourdes, Maria Lira, Mariquinhas, Noemisa, Rosana, Vicentina Julião, Zefa e Zezinha (Galeria Mari’Stella Tristão), revelando o potencial da arte popular na exposição Assim, como acontece; e nomes como Aretuza Moura, Arlinda Corrêia Lima, Fatima Pena, Fayga Ostrower, Juliana Gontijo, Mabe Bethônico, Marcia Xavier, Marina Nazareth e Yara tupynambá (PQNA Galeria Pedro Moraleida), reunidos na exposição Acervo FCS Mulheres.

Pintura, escultura, desenho, bordados e novas formas de trabalhar objetos marcam a produção expressiva dessas várias gerações de criadoras. De acordo com a Gerente de Artes Visuais da FCS e curadora da mostra, Uiara Azevedo, as artistas convidadas para a quinta edição do ARTEMINAS seguem as mais variadas linhas de produção artística, e demonstram a multiplicidade e força de seus trabalhos. “A produção dessas artistas tem uma característica de transgressão e resistência. Existe, em todos elas, cada qual com a sua motivação e forma de trabalho, inquietudes e forças muito singulares, que exploram o universo feminino em suas mais diversas possibilidades”, destaca. Uiara ressalta também que para a Fundação Clóvis Sagado, é de extrema importância abrir as galerias para essas exposições, que propõem um questionamento da produção artística feminina e seus lugares de ocupação.

Marci Silva, que também assina a curadoria do novo ARTEMINAS, destaca a oportunidade de perceber o trabalho artístico feminino em sua completude, atribuindo valor à delicadeza e à força das obras. “Buscamos explorar os conceitos de processo, da troca, e do equilíbrio que permeiam o feminino. Daí surge o trabalho com coletivos, com artistas emergentes, com aquelas em busca de algum espaço para se posicionar. É uma experiência enriquecedora tanto para as artistas, quanto para o público”, destaca Silva.

A realização do quinto ARTEMINAS – Sou aquilo que não foi ainda – consolida a iniciativa de estimular e divulgar as artes visuais mineiras, campo no qual o estado tem alcançado destaque histórico. E, mais uma vez, a Fundação Clóvis Salgado reafirma sua vocação pública ao oferecer seus espaços expositivos para inquietações e reflexões artísticas.

SOBRE AS EXPOSIÇÕES:

HÍBRIDA

As Galerias Genesco Murta e Arlinda Corrêa Lima recebem a produção contemporânea das artistas Carolina Bortura, Giulia Puntel e Julia Panadês. A exposição possui curadoria de Laura Barbi e parceria com a GAL Galeria, um projeto da capital mineira voltado à pesquisa e circulação da arte contemporânea que propõe um modelo alternativo ao praticado por galerias e instituições de arte tradicionais. Criando contextos singulares para as exibições, GAL é um projeto desterritorializado e itinerante: leva suas ações para locais em desuso ou ocupa temporariamente espaços culturais.

Em comum, as obras da exposição Híbrida retratam o interesse pelo corpo humano, pela identidade de gêneros e suas diversas formas de representações – desdobramentos simbólicos, relações com as narrativas históricas e religiosas, com a maternidade, com o erotismo e com a natureza feminina.

Segundo a artista Giulia Puntel, que se formou em Belo Horizonte mas teve grande período de atuação artística em São Paulo, a exposição é uma oportunidade de ocupar a cidade de onde veio. “É a primeira vez que exibo meu trabalho na capital mineira, onde nasci, cresci e me formei. Estou muito feliz com o convite e ansiosa pelos desdobramentos que a mostra terá durante os meses em cartaz”, comemora Puntel.

A ocupação das artistas propõe um recorte contemporâneo da produção local, sem caráter retrospectivo ou histórico. A mostra contará com trabalhos em diversas linguagens e suportes – pintura, bordado, objetos, performances, fotografia e escultura. A proposta dessa exposição é ampliar o conhecimento sobre a produção emergente em Belo Horizonte e romper certo silêncio no que diz respeito à arte produzida por mulheres.

EFÊMERA

 

As paredes da Galeria Aberta Amílcar de Castro ganharão grafites das artistas Artêmis Garrido, Isabel Saraiva, Maria Clara Cheib e Amanda Vilaça (Mona). Cada artista trará diferentes questionamentos que permearão, devido ao suporte artístico, a noção da curta duração, do breve, e do transitório. Efêmera terá uma configuração especial: as artistas se reunirão a partir do dia 25 de novembro (segunda-feira) para iniciar os grafites, e permanecerão desenvolvendo o trabalho até a abertura do Programa, no dia 28 (quinta-feira). O público poderá observar as obras em processo e acompanhar a feitura de todos os painéis.

Ártemis Garrido, que é natural de Ilhéus (BA), viveu e produziu grande parte de seu trabalho em Minas Gerais. Para a artista, a pintura mural surge neste ano, realizando uma tessitura com o trabalho enquanto artista plástica e arte-educadora no Consultório de Rua do SUS, onde explora a arte com a população em situação de rua das regiões Norte/Nordeste de Belo Horizonte. “Poder participar do ARTEMINAS é meu reconhecimento de pertencimento à cidade. A mostra, que dessa vez conta apenas com artistas mulheres, é um recorte necessário para que o público conheça mais sobre as artistas que estão produzindo e as que abriram as portas para que nós estivéssemos aqui”, ressalta Garrido.

Para a mostra Efêmera, a artista explora o conceito do retrato e a oportunidade de pintar, homenagear e dar visibilidade a quem, por vezes, não é visto. “Apresentarei a pintura mural do retrato de Maria, uma mulher que conheço nas ruas a partir do meu trabalho enquanto arte-educadora em BH. Em um dos atendimentos, visitamos uma exposição no Palácio das Artes, e ela revelou que apesar de ter dormido ali em frente por um tempo, nunca tinha acessado a instituição”, conta Garrido. “Pintar o retrato dela, um ano após este acontecimento, é uma homenagem não só para Maria, mas para todas as mulheres em situação de rua”, conclui.

Isabel Saraiva transita por diversas linguagens: do desenho ao lambe, bem como pela pintura mural, a artista explora o contraste entre cores, linhas e texturas. O repertório criativo da artista circunda pesquisas sobre moradas, cidades e lugares imaginários, ideias que Saraiva pretende transpor à parede da galeria.

Já a artista Maria Clara Cheib, que também trabalha com cerâmica, desenho e pintura, diz se sentir muito lisonjeada por participar do ARTEMINAS. “Ocuparei um espaço ao lado de mulheres que tanto admiro e que tanto enriquecem a minha experiência”, conta. Cheib ainda destaca a importância dessa edição do programa, que é, acima de tudo, uma oportunidade para mulheres ocuparem espaços em que, na maioria das vezes, são apenas retratadas. “Acho de suma importância ocupar espaços como autoras, expondo a nossa vivência. Precisamos colocar o nosso corpo alí, de alguma forma, marcar a nossa presença”.

Amanda Vilaça (Mona) teve seu contato com o grafite através dos movimentos de hip-hop e cultura da região do Barreiro, onde mora. Começou a pintar suas letras nas ruas no final de 2016, época que também fez parte do coletivo Fábrica de Sonhos. Desde então, a artista explora a mistura de letras com elementos diversos da natureza em seus trabalhos.

ASSIM, COMO ACONTECE

 

A Galeria Mari’Stella Tristão recebe produções de diversas artistas populares, em retratos que esboçam os inúmeros papéis desempenhados pelo feminino – as obras transitam da representação da maternidade até as mais variadas funções laborativas conquistadas e desempenhadas pelas mulheres. A mostra Assim, como acontece reunirá obras dos coletivos As Bordadeiras do Curtume e Bordadeiras da Vila Mariquinhas, além de obras das artistas Ana do Baú, Ana Ribeiro, Cássia Macieira, Clemência, Dida, Dionisia, Dona Enedina, Dona Irene, Dona Isabel, Eva, Geralda Batista, Ivanete, Maria de Lourdes, Maria Lira, Noemisa, Rosana, Vicentina Julião, Zefa e Zezinha.

As Bordadeiras do Curtume, projeto que valoriza a cultura mineira e fortalece a autoestima das mulheres da comunidade do Curtume, no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, gera renda e apoio à saúde mental das participantes. Os bordados que compõem a exposição são o resultado de um processo de reconexão dessas mulheres com o mundo externo e da diminuição da sensação de abandono. Já as Bordadeiras da Vila Mariquinhas (BH) retratam em suas produções a luta pela moradia própria. Instaladas atualmente numa vila na região Norte de Belo Horizonte, aproveitaram o tempo livre para registrar as próprias experiências através dos bordados.

Um dos destaques da exposição é a mestre Maria Lira Marques Borges, conhecida como Lira, nascida em Araçuaí. Tendo como inspiração o índio e o negro, a artista modela máscaras em barro e faz “pinturas de Terra”, modo como chama as obras em argila sobre o papel. Além de ceramista, Lira é também pesquisadora, se interessa pelas etnias do povo brasileiro, especialmente do Vale do Jequitinhonha.

Já Cassia Macieira, artista plástica e professora do curso da Escola de Design de UEMG, apresenta suas bonecas de pano. Embora a própria artista não se defina como popular e designe sua criação como ocupante de um “não lugar’”, sua criação possui processos de produção e escolha de materiais característicos do universo da mostra.

A exposição também conta com obras de Ana do Baú, Ana Ribeiro, Clemência, Dida, Dionisia, Dona Enedina, Dona Irene, Dona Isabel, Eva, Geralda Batista, Ivanete, Maria de Lourdes, Noemisa, Rosana, Vicentina Julião, Zefa e Zezinha. As artistas exploram além da figura da matriarca das famílias e das cuidadoras domésticas, papéis como a cangaceira, a vendedora, a quituteira, a costureira, a benzedeira e a rendeira. A visão de cada uma sobre a figura feminina e seus cotidianos está impressa nas criações confeccionadas em diversos materiais: cerâmica, bordados e bonecas em tecido.

ACERVO FCS: MULHERES

A PQNA Galeria Pedro Moraleida será ocupada pelo acervo da Fundação Clóvis Salgado de obras produzidas por mulheres. Segundo Uiara Azevedo, o acervo possui obras de 133 artistas homens, e de apenas 51 mulheres. Com intuito de expor a questão, a exposição mostrará ao público parte desse acervo com trabalhos de Aretuza Moura, Arlinda Corrêia Lima, Fatima Pena, Fayga Ostrower, Juliana Gontijo, Mabe Bethônico, Marcia Xavier, Marina Nazareth e Yara tupynambá.

“Citando Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu, ‘a mulher jamais escreve sobre a própria vida e raramente mantém um diário, existe apenas um punhado de suas cartas’. Cito a autora, que se refere à dificuldade de encontrar obras literárias escritas por mulheres nas instituições inglesas, para que compreendamos a necessidade de abordar essa invisibilidade feminina”, diz Uiara. Azevedo também se refere ao trabalho do coletivo artístico feminista Guerrilla Girls, que chama atenção para a discrepância na curadoria das obras de arte nos acervos de museus ao redor do mundo. “O trabalho desse coletivo faz com que outras instituições estabeleçam um olhar crítico sobre as suas coleções, e passem a observar, valorizar e exibir trabalhos produzidos por mulheres”, conclui Azevedo.

Marci Silva – Atua em Belo Horizonte como Curadora Independente e produtora cultural. Coordena e administra a empresa Nuvem Projetos Educativos e é idealizadora do projeto Meu corpo, minha obra: Imersão, vivência e curadoria coletiva para artistas. Compõe a equipe de organização da RAM – Residência artística da Mutuca (Altamira/Nova União-MG). Participou da banca de júri para seleção de projetos do edital de ocupação das galerias da Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, março de 2019. Desenvolveu e coordenou o Programa Educativo para a exposição “Museu do Futebol na área” no Centro Cultural Banco do Brasil – Belo Horizonte, 2018. Selecionada para o programa de residência artística do EAC – Espacio de arte contemporâneo de Montevideo – Uruguai, como pesquisadora em arte contemporânea e modos de fazer. Atuou como coordenadora e curadora na galeria de arte Mama/Cadela em Belo Horizonte nos anos de 2015/16. Possui experiência como Arte educadora no Instituto Inhotim de 2008 a 2012, atuando no Intercâmbio Cultural entre Instituto Inhotim (Brumadinho-MG) e Tate Modern Museum (Londres – Inglaterra) 2011/2012. Pesquisadora da I Bienal de artes de Montevideo – Uruguai, 2012.

Uiara Azevedo – Natural de Belo Horizonte, atua como produtora e pesquisadora em artes visuais, tendo como sua principal pesquisa a arte contemporânea brasileira. Formada em Design de Produto pela Universidade Estadual de Minas Gerais – UEMG (2008). Atua no mercado de arte desde 2007. Foi gerente da Celma Albuquerque Galeria de Arte e produtora executiva do Centro de Arte Popular – CEMIG. Desde 2015 é gerente de Artes Visuais da Fundação Clóvis Salgado. Participou da banca de júri para seleção de projetos do edital de ocupação das galerias da Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte, nos anos de 2018 e 2019. Realizou entre suas principais exposições: Arte Frágil: Resistências (2009) no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo em São Paulo. 3 lamas (Aí, pareciam eternas!) do artista paulistano Nuno Ramos (2012) na Celma Albuquerque Galeria em Belo Horizonte. Das edições 31°Bienal de São Paulo – Como (…) coisas que não existem” (2015) – itinerância em Belo Horizonte, 32° Bienal de São Paulo – Incerteza Viva (2017) – itinerância em Belo Horizonte e 33° Bienal de São Paulo – Afinidades Afetivas (2019) – itinerância em Belo Horizonte todas realizadas no Palácio das Artes.

PROGRAMA ARTEMINAS – NARRATIVAS FEMININAS

 HÍBRIDA

Carolina Bortura, Giulia Puntel e Julia Panadês

Local: Galeria Genesco Murta e Galeria Arlinda Corrêa Lima

ASSIM, COMO ACONTECE

Ana do Baú, Ana Ribeiro, Bordadeiras do Curtume, Bordadeiras da Vila Mariquinhas, Cássia Macieira, Clemência, Dida, Dionisia, Dona Enedina, Dona Irene, Dona Isabel, Eva, Geralda Batista, Ivanete, Maria de Lourdes, Maria Lira, Mariquinhas, Noemisa, Rosana, Vicentina Julião, Zefa e Zezinha

Local: Galeria Mari’Stella Tristão

 EFÊMERA

Ártemis Garrido, Isabel Saraiva, Maria Clara Cheib e Mona

Local: Galeria Aberta Amílcar de Castro

ACERVO FCS MULHERES

Aretuza Moura, Arlinda Corrêia Lima, Fatima Pena, Fayga Ostrower, Juliana Gontijo, Mabe Bethônico, Marcia Xavier, Marina Nazareth e Yara tupynambá

Local: PQNA Galeria Pedro Moraleida

Período das exposições: 29 de novembro a 8 de março

Horário: Terça a sábado, das 9h30 às 21h. Domingo, das 16h às 21h

Classificação: livre

Entrada gratuita

Abertura das exposições: 28 (quinta-feira), às 19h

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