“Batons e pandemia” por Vivaldo José Breternitz

Embora falar sobre maquiagem em tempos tão difíceis como os que estamos vivendo possa parecer uma frivolidade, vale a pena lembrar alguns fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, dos quais talvez possamos tirar algumas lições.

Churchill afirmava que o uso do batom “elevava o moral da população”. Foi considerado produto de primeira necessidade. Numa época em que produtos como gasolina, açúcar e ovos eram racionados, os batons estavam amplamente disponíveis – era o único cosmético produzido. Em 1941, talvez o ano mais difícil da guerra para os britânicos, a revista Vogue dizia às mulheres que, “agora, mais do que nunca, a beleza é seu dever” – o slogan “beauty is your duty” tornou-se extremamente popular, sendo visto como um símbolo de compromisso com a pátria.

O primeiro-ministro pedia às mulheres que o usassem como ação de propaganda para elevar o ânimo dos soldados. Elas eram encorajadas a mandar aos soldados cartas marcadas com beijos. O ódio público e notório de Hitler por qualquer tipo de cosmético era outro motivo a incentivar o uso do batom. Vivia-se uma situação em que, como agora, boa parte de nossas ações sofria a intervenção de governos, sendo a aparência a única coisa que as mulheres podiam controlar.

Os produtores de cosméticos evidentemente aderiram à campanha com entusiasmo: Revlon, Elizabeth Arden e Helena Rubinstein criaram batons destinados à mulheres que serviam nas forças armadas, com cores que combinavam com as de suas fardas e nomes como “Vermelho Vitória”, cuja embalagem foi desenhada de forma a que se adaptasse aos bolsos dos uniformes. A própria rainha Elizabeth II alistou-se no exército, servindo como motorista de caminhões.

O uso do batom dá às mulheres uma sensação de normalidade. Nestes dias, quando as pessoas estão lidando com o estresse, o confinamento e a perda de entes queridos, é muito importante manter alguns hábitos da vida diária que fazem com que as pessoas se sintam normais: pintar os lábios empodera.

Em outras crises, observou-se um crescimento da venda de cosméticos, o que pode tornar a acontecer agora. Leonard Lauder, principal executivo da empresa de mesmo nome, criou o termo “efeito batom”: os consumidores buscam “luxos” acessíveis em vez de consumir itens mais caros ou fazer investimentos maiores em carros ou casas, pois a perda de empregos e a retração da economia torna tudo isso mais difícil.

Assim, é bem provável que haja um crescimento da indústria de cosméticos após o fim da pandemia, pois, além disso, as mulheres deverão sentir a necessidade de se arrumar, sair à rua e se apresentarem da melhor forma que puderem, deixando para trás pijamas, camisetas e moletons, que parecem ser o padrão na atualidade.

*Vivaldo José Breternitz é Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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