Fruto de oito anos de pesquisa da socióloga Isabelle Anchieta, a obra revela as ambiguidades e estereótipos da representação feminina. No lançamento, em Belo Horizonte, em março, a autora participa de bate-papo com Mônica Waldvogel, pelo projeto Sempre um Papo. Imperdível!

Remontar os primórdios da individualização e humanização da sociedade do Ocidente Moderno por meio das imagens da mulher – este foi o cerne do estudo realizado pela socióloga Isabelle Anchieta. Ao longo de oito anos, ela mergulhou em uma intensa pesquisa teórica e de campo, na qual se debruçou por pinturas, esculturas, panfletos noticiosos e filmes dos arquivos de bibliotecas da Alemanha e Suíça, museus da Europa e até dos estúdios de Hollywood. O resultado pode ser conferido em Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, trilogia a ser lançada em 12 de março, pela Edusp, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes.

“Elegi as imagens da mulher por ser ambíguas personagens que atraem, em torno de si, os mais contraditórios sentimentos sociais. Mulheres que nem sempre foram vítimas de suas representações. Conformadas em temíveis e atrativas imagens elas também souberam fazer uso e proveito do fascínio que provocaram, invertendo os jogos de poder”, explica a autora.

Composta por três volumes, a obra de Isabelle Anchieta fundamenta e até se confunde com o início da cultura ocidental moderna e, não ao acaso, seu recorte temporal e geográfico é o Ocidente moderno. Entre as diversas imagens femininas, a socióloga priorizou aquelas que se popularizaram no Ocidente por meio de estereótipos: a bruxa, a índia tupinambá canibal, Maria, Maria Madalena e as estrelas hollywoodianas.

É importante elucidar que autora não parte da premissa de que as mulheres foram a parte fraca ou oprimida do objeto de estudo. “Mais do que uma simples identificação de quem são os vilões, as vilãs e as vítimas, atentei para as contradições, o que escapa ao controle e às intenções dos atores, e as ambiguidades próprias da representação da imagem da mulher. Uma alteridade que simultaneamente provoca atração e medo, no que denominei ‘marginal atrativa’. Difícil dizer, ao fim, quem controla quem, mesmo porque as imagens são animadas pelas relações”, enfatiza a autora.
“A pesquisadora se deslocou rumo às fontes originais e fez uma verdadeira peregrinação em direção às imagens, sem descurar jamais da materialidade das obras analisadas: o tamanho, os locais, o contexto e a autoria. O conjunto é robusto, inesperado e convence”, diz a historiadora e antropóloga Lilia M. Shwarcz, que assina a contracapa da obra. A série abre com Bruxas e Tupinambás Canibais, no qual o leitor pode acompanhar a diabolização da imagem da mulher nos séculos XV e XVI por meio de um diálogo entre as bruxas e as índias tupinambás, figuras que tanto atormentaram e enfeitiçaram os homens na transição da Idade Média para a Idade Moderna.

No segundo livro, a autora traz a idealização e a emergente humanização da imagem feminina por meio de Maria e Maria Madalena, figuras que emprestam o nome à publicação, protagonistas que incorporam os mais diversos conflitos de ordem religiosa, moral e econômica. A socióloga traz, com elas, a ascensão e a crise da moralidade cristã entre a Idade Média e a Moderna.

Na remontagem histórica traçada pela socióloga, é posta em evidência a transição de “personagem a uma pessoa” vivenciada pelas mulheres. Segundo a autora, primeiro, elas lutaram para humanizar-se no fim da Idade Média, tentando desvencilhar-se de um destino de extremidades, no qual ou eram bruxas ou santas. “Descê-las do pedestal e retirá-las da boca do inferno foram os primeiros passos para que, enfim, a modernidade levasse sua encarnação a cabo”, explica.

O movimento seguinte foi o de individualização, com o desejo de ser única e reconhecível, tal qual estimava as estrelas hollywoodianas que intitulam o terceiro volume – Stars de Hollywood.

“Desde então, a mulher tem sido plural: mulheres. Existe apenas na forma particular que a encerra”, afirma Anchieta. A esse duplo movimento, que se entrelaça e se complementa, a autora atribui o termo individumanização.
“Nos três livros que compõem a série, Isabelle Anchieta inaugura, entre nós, um estilo de reflexão que explora as múltiplas possibilidades de interpretação das imagens na perspectiva sociológica. É uma obra originada no manejo da mais fina artesania”, pontua a socióloga.

Sobre a autora

Nascida em dezembro de 1978 em Belo Horizonte (MG), Isabelle Anchieta é Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi a brasileira eleita na competição Mundial Jovens Sociólogos promovida pela ISA, com apoio da UNESCO, em 2014 e em 2008 recebeu o prêmio Rumos Itaú Cultural como professora de jornalismo cultural. Lecionou na Newton Paiva, em Belo Horizonte, e na Universidade Mackenzie, em São Paulo. Tem dois livros publicados, Sete Propostas para o Jornalismo Cultural (2009) e Mapeamento do Jornalismo Cultural. É colaboradora das revistas Sociologia e Mente e Cérebro, da Scientific American. Seus artigos são adotados em universidades de língua portuguesa como a Universidade de Coimbra, a Universidade da Madeira e a Universidade de Nova de Lisboa, em Portugal e também na Universidade Lusófona, em Cabo Verde.

Ficha técnica

Título: Imagens da Mulher no Ocidente Moderno Box com três volumes: Bruxas e Tupinambás canibais, Maria e Maria Madalena e Stars de Hollywood Autora: Isabelle Anchieta Edição: Edusp Valor: R$ 170
Volume 1: Bruxas e Tupinambás canibais Páginas: 224 Valor: R$ 60
Volume 2: Maria e Maria Madalena Páginas: 220 Valor: R$ 60
Volume 3: Stars de Hollywood Páginas: 248 Valor: R$ 60

Serviço

Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, de Isabelle Anchieta

Lançamento: 12 de março, quinta-feira, às 19h30 Com bate-papo da autora com Mônica Waldvogel

Aberto ao público

Local: Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes Endereço: Av. Afonso Pena, 1537, Centro | Belo Horizonte/MG

SITE: www.isabelleanchieta.com